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Resort sim. Complexo imobiliário não!
16 de Outubro de 2007

Há mais de duas décadas abandonada pelo Governo estadual, a Área de Proteção Ambiental - APA de Maricá, criada pelo decreto 7.230/84, volta à discussão pública por força de um mega-empreendimento turístico-imobiliário projetado por um grupo luso-espanhol.

Visionários num primeiro momento, os investidores estrangeiros, depois do desastrado anúncio da proposta de descaracterizar o perfil de 969,6 ha de área remanescente de restinga, recuaram na sua proposta inicial quando depararam com nossa realidade social, ambiental e política. Talvez tenham percebido que não poderiam simplesmente impor um empreendimento que comprometesse o perfil natural do já combalido ecossistema costeiro fluminense.

O "complexo hoteleiro" anunciado, com o apoio de algumas autoridades públicas, em verdade escondia um imenso conjunto de prédios de 2 a 6 andares, condomínios fechados, campos de golfe, marina para 1000 embarcações de médio porte, abertura de um canal artificial entre o sistema lagunar e o mar e um quebra-mar para conter a força das ondas junto a praia. O conjunto de obras e intervenções previsto no projeto chegaram ao montante de R$ 8 bilhões, numa evidente pré-disposição econômica para privatizar nossas riquezas naturais.

A população maricaense, surpreendida pela propaganda de um resort seis estrelas, num primeiro momento manifestou sua satisfação com a chegada dos investidores europeus, acreditando na promessa de geração de empregos e o desenvolvimento do município que há muitos anos não é objeto de uma administração pública comprometida com os interesses da população residente. Logo, contudo, o marketing patrocinado pelas autoridades locais foi desfeito quando ativistas sociais e ecológicos revelaram que o "projeto hoteleiro" sequer dispunha de pedido de licenciamento ambiental junto a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), surgindo a dúvida sobre as intenções dos novos proprietários da APA de Maricá.

Não demorou muito, abruptamente, a APA de Maricá foi cercada quilometricamente. O que outrora sugeria uma paisagem paradisíaca, tornou-se uma ligeira lembrança dos campos de concentração nazista. O objetivo dos empreendedores provavelmente era garantir a "ocupação ordenada" de 2,2 milhões de metros quadrados.

Então veio a re-regulamentação da APA de Maricá, que pela segunda vez ganhou um Plano de Manejo. Mais restritivo que o primeiro zoneamento aprovado em 1988, o novo Plano de Manejo ampliou as Zonas de Preservação da Vida Silvestre, mas fragmentou a restinga quando indicou as zonas de Conservação da Vida Silvestre e de Ocupação Controlada que evidentemente favorecem o perfil imobiliário do resort.

Para que não prevaleçam os radicalismos, seja dos empreendedores estrangeiros ou dos conservacionistas, urge a necessidade do Governo estadual assumir suas responsabilidades e garantir a ampliação das Zonas de Preservação da Vida Silvestre (ZPVS) de forma que sejam garantidos os corredores biológicos da APA de Maricá.

Resort ecologicamente sustentável sim. Complexo imobiliário não!



Gerhard Sardo
( Jornalista e Analista Ambiental )
gerhard@conectacom.net



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